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Alagoas é o Estado com mais leitos psiquiátricos privados

26 de dezembro de 2011

Fiscalização realizada pelo Conselho Regional de Psicologia verificou maus tratos e abuso de direitos aos usuários

<< Debate - Drogas e Reforma Psiquiátrica um desafio social.

Em 2011 o número de Comunidades Terapêuticas (CT’s) aumentou de 12 para 30 somente em Alagoas. Segundo o psicólogo e integrante do Conselho Regional de Psicologia (CRP), Edilson Moura, a forma de tratamento utilizada nessas unidades são segregadoras e não corresponde às especificidades de cada tipo de usuário. Esta afirmação foi feita durante o debate Drogas e Reforma Psiquiátrica: um desafio social, realizado pelo Conselho Regional de Serviço Social (CRESS), no dia 12 de dezembro.

Durante vistorias realizadas este ano pelo CRP, revela Edmilson Moura, foi verificada nas Comunidades Terapêuticas e Clínicas de Tratamento Involuntário a violação de correspondências dos usuários e a presença de quartos de isolamento sem ventilação e banheiro.

Além disso, continua o psicólogo, durante o período de internamento, que pode durar até oito meses, os usuários não podem manter vida sexual ativa, os adolescentes internos não podem frequentar a escola, bem como a visita de familiares é proibida para todas as pessoas e os telefonemas só podem ser realizados com acompanhamento de um funcionário. Ele acrescenta ainda que os portadores do vírus HIV não recebem um tratamento profissionalizado e são ainda mais marginalizados.

“Desde setembro a presidente Dilma anunciou o lançamento de uma rede em saúde mental, crack, álcool e outras drogas que inclui financiamento público às Comunidades Terapêuticas. Isso vai de encontro às práticas clínicas e políticas reafirmadas pela IV Conferência Nacional de Saúde, que não reconhecem este dispositivo, e também foram reprovadas na 14° Conferência Nacional de Saúde, ocorrida de 30 de novembro a 4 de dezembro de 2011”, lembra Moura.

Ação profissional do serviço social e a questão das drogas

A presidente da subcomissão de saúde mental e primeira secretária do CRESS, Tereza Tenório, afirmou a importância do evento para o debate contemporâneo na sociedade e na intervenção dos profissionais que atendem, direta ou indiretamente, as pessoas que usam drogas. Segundo ela, “esse foi um primeiro momento de outros que o Conselho pretende realizar através da subcomissão de saúde mental”.

Para a professora de Serviço Social da Ufal e representante do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Rosa Prédes, a contribuição do serviço social para a luta em defesa da reforma psiquiátrica está no fato de a ação profissional do assistente social não ser um serviço psíquico.

“A nossa contribuição é exatamente porque não fazemos terapias, somos capacitadas/os para entender a sociedade, trabalhá-la em sua inserção coletiva e pensar por que a maioria dos usuários é da classe trabalhadora pobre de baixa rende ou sem nenhuma renda”, reflete Rosa Prédes ao frisar que é preciso relacionar as drogas com a base da sociedade e com o que está acontecendo na política e na economia.

Segundo a professora, Alagoas vive um retrocesso histórico no tratamento de usuários de crack, álcool e outras drogas. Ela explica que as ações religiosas e segregadoras utilizados no tratamento dos usuários nas CT’s e Clínicas Psiquiátricas privadas retroagem há dois séculos.

“A droga é uma substância que a sociedade usa desde a antiguidade para ter experiências espirituais e físicas para além da realidade. O que significa a droga para a sociedade? Temos que pensá-la para além do tratamento do usuário. Não podemos fazer essa discussão de forma criminalizadora. É preciso entender o sofrimento psíquico, principalmente o em decorrência do uso de drogas, de forma emancipadora”, completa a professora.

A mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas, Karoline Lamenha, traçou um histórico da luta antimanicomial e as disputas de interesses do setor privado em detrimento do púbico. Ela mostrou também a relação da reforma psiquiátrica com a reforma sanitária e o Código de Ética dos Assistentes Sociais. Segundo a pesquisadora, esse conjunto contém os princípios de acesso universal aos serviços, a integralidade das ações, a equidade e respeito às diferenças, a descentralização dos recursos e o controle social.

Relatos

Durante o evento, o usuário J. H. A, 30 anos, relatou que é usuário de drogas desde os 13 anos e perdeu um dos olhos numa tentativa de homicídio, devido o envolvimento com as drogas. Disse ainda que foi rejeitado pela família e passou a dormir nas ruas. Atualmente J. H. A. está em tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps-ad). Já o usuário B. A., 42 anos, frisou que há dois anos está livre das drogas. “Eu consegui, mas perdi um amigo por conta das drogas”. Na ocasião, os usuários fizeram uma apresentação teatral com a peça Vencer ou perder: a escolha é sua, relatando suas experiências de vida.


 
 
Conselho Regional de Serviço Social - CRESS 16ª Região de Alagoas