CRESS Entrevista | Luta antirracista na educação: confira a entrevista com Leila Cristina Fernandes Costa
26/07/2023 às 10h00
O Serviço Social tem como um dos seus princípios fundamentais o “empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças”. Dessa forma, o Comitê de Combate ao Racismo convida a todas, todos e todes a uma reflexão sobre o dia 25 de julho, marco internacional de luta e resistência da mulher negra para reafirmar a necessidade de enfrentar o racismo e o sexismo vivido até hoje por mulheres que sofrem com a discriminação racial, social e de gênero.
Além disso, o Comitê organizou entrevistas com três assistentes sociais negras que atuam em diversas áreas, as quais descrevem suas trajetórias de atuação, de pertencimento, identidade e resistência.
A primeira entrevistada é Leila Cristina Fernandes Costa, Assistente Social e Pedagoga, com especialização em Gestão Pedagógica nas Escolas Técnicas do SUS (UFMG), Gestão em Educação Ambiental (UFAL), Recursos Humanos (CESMAC) e mestra em Educação Profissional em Saúde (Fiocruz /RJ). Sua atuação como Assistente Social é no âmbito escolar e ela nos conta sobre a reflexão individual e coletiva do Serviço Social sobre a temática étnico-racial dentro das escolas.
“Para fortalecer a luta antirracista na educação, é necessário reconhecer que o racismo está presente na escola, que é parte de uma estrutura social e que a escola não está imune ao preconceito, que ela é "constituída e "construída" por indivíduos que circulam fora daquele espaço”, destaca Leila.
Confira a entrevista na íntegra:
Qual a sua análise sobre o papel do Serviço Social no enfrentamento de questões históricas da luta antirracista na educação?
Quando falamos em educação antirracista, estamos evidenciando um projeto político que amplifica conquistas legais dos movimentos negros nos últimos tempos. Em se tratando do chão da escola, a educação antirracista desenvolve caminhos de reflexão, estratégias e práticas pedagógicas que colaboram para a promoção da igualdade racial. Seu objetivo é eliminar qualquer forma de opressão e discriminação. Nesse sentido, compartilhar conhecimentos, valorizar as singularidades e construir uma atmosfera escolar que respeite e valorize a diversidade são práticas que fortalecem e possibilitam o combate ao racismo.
Para fortalecer a luta antirracista na educação, é necessário reconhecer que o racismo está presente na escola, que é parte de uma estrutura social e que a escola não está imune ao preconceito, que ela é "constituída e "construída" por indivíduos que circulam fora daquele espaço”. Que é um lugar que podemos estimular atitudes mais inclusivas respeitando as diferenças, através de debates, rodas de conversas, brincadeiras, etc. Como diz Djamila Ribeiro, perceber-se é algo transformador.
É compromisso ético-político do Serviço Social (Assistente Social) atuar no enfrentamento e combate contra o preconceito, discriminação e desigualdade social. Enquanto Assistente Social da Educação, que trabalha no chão da escola, torna-se necessária a reflexão individual e coletiva sobre a temática étnico-racial. A Escola é um espaço que devemos desenvolver narrativas e debates a cerca de temas que envolvem a valorização dos indivíduos sociais, essas reflexões não se resumem apenas aos alunos, mas toda a comunidade escolar (professores, funcionários, pais e responsáveis).
O quesito raça/cor/etnia deve coadunar com os princípios preconizados no Código de Ética do profissional de Serviço Social. Como você se enxerga, enquanto mulher negra, assistente social que atua na educação?
No quesito raça/cor/etnia, o código de ética do Serviço Social preconiza a equidade como um dos principais princípios, ou seja, o senso de justiça, a imparcialidade, respeito à igualdade de direitos. Enquanto mulher, negra, que circula em espaços de poder, tenho lugar de fala, por que vivo na pele o preconceito nivelado, quer seja pela maneira de apresentar-me, com minhas tranças, minha religião (Umbanda Sagrada), meus posicionamentos como militante da causa antirracista, quer seja pela a incansável defesa de assegurar a Lei 10.639/ 2003 nas práticas pedagógicas e projetos da escola.
Conquistei em alguns anos, como assistente social, que trabalha dentro da Unidade Escolar, admiração e também críticas, mas não recuo quando vejo que também faço a diferença para crianças e adolescentes que veem na minha cor e no meu cabelo, uma referência. Não falo isso por vaidade, mas por conquista de espaço através de luta e resistência. Em um dos muitos projetos, sobre a diversidade étnico racial, desenvolvidos na escola, observei na fala de uma criança negra e periférica, que ela não se reconhecia negra, pois evidenciava que seu antebraço era "branco" dizia que não era preto, a partir desse momento percebi que precisávamos potencializar ainda mais nossas estratégias na luta pelo pertencimento e contra o racismo.
Dessa forma, como explica Netto (1996), ao profissional de Serviço Social cabe transformar possibilidades em realidade atuando contra tudo aquilo que está posto, elaborando e desenvolvendo respostas e ações que atendam as necessidades trazidas pelos usuários, sejam elas explícitas ou implícitas. Sim, esse é o nosso papel!
Que caminhos você analisa e aponta para fortalecer as lutas das mulheres negras latino-americanas e caribenhas?
O caminho para fortalecer a luta antirracista, a luta de mulheres negra latino-americanas e caribenhas é a resistência contra a opressão, contra a invisibilização e silenciamento de histórias.
Enfatizando nós, mulheres negras latino-americanas e caribenhas precisamos de cuidados, de acolhimentos e de afetos. São muitos "corres" e responsabilidades que temos que enfrentar todos os dias, fora nosso estado latente de reações quando nos sentimos oprimidas, exploradas e descriminadas por preconceitos e machismos.
Nossos verbos são: resistir, construir e avançar. Ainda estamos dentro dos piores indicadores sociais em se tratando de violências (feminicídios, desigualdades por cor, raça e baixos salários). Então o dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é um momento de afirmação, luta e resistência. Dia de convocar e sensibilizar a sociedade para reflexão e tomada de consciência, de lembrar aquelas mulheres, que lá atrás lutaram, e as que hoje lutam por dias melhores e que podemos fortalecer a cada dia essa luta.
Não resisto e te provoco: O que você está fazendo para combater o racismo?


